Texto originalmente enviado na newsletter de 31/03/2022

Muitas pessoas sentem certo incômodo com a palavra “sonhar”. Sempre parece algo romântico demais, abstrato demais. Algumas pessoas não sabem ou não conseguem responder à pergunta “qual o seu sonho” e acham que há algo errado com elas. Ou ainda evitam pensar nisso, pois a vida já trouxe tanta frustração que parece que sonhar alto só vai fazer a queda ser mais dolorida.

É por isso que eu que, em vez de sonhar, eu queria te ajudar a vislumbrar. Porque é diferente.

Enquanto o sonho pode facilmente virar algo descolado da realidade, vislumbrar significa enxergar algo, mesmo que com pouca clareza, baixa visibilidade.

Meus pais jamais sonhariam que um filho deles faria faculdade. Dentro da nossa realidade dos anos 90, isso era impossível. Pelas lentes com as quais eles enxergavam o mundo, tendo passado tantas dificuldades, um filho formado era um arquivo mental inexistente.

Então eu cresci sem nenhum incentivo pra fazer faculdade. Não que eles fossem contra, apenas essa expectativa nunca foi sequer cogitada.

Na escolha onde estudei até a 7ª série, nunca ouvi a palavra faculdade também. É um bairro carente e apenas continuar na escola já era demais pra muita gente. Na 8ª série fui estudar no centro da cidade e tive contato com pessoas mais informadas. Lá descobri que existia uma escola pública, na minha cidade mesmo, de melhor qualidade. Estudei pro vestibulinho dessa escola, passei e cursei o Ensino Médio lá. Foi a primeira vez que convivi com pessoas que falavam de faculdade. Foi quando eu comecei a vislumbrar essa possibilidade: eu não tinha ideia do como isso aconteceria, mas eu comecei a pensar que talvez isso poderia acontecer.

O resto é história. Fui dando alguns passos até que a sorte de terem lançado o ProUni no ano em que me formei no Ensino Médio tornou tudo realidade. Mas eu precisei de uma faísca de vislumbre de que uma realidade paralela na qual eu cursa ensino superior era verdadeira. Se não fosse aquela faísca, eu nem teria feito vestibulares simulados, nem prestado o Enem (que na época, 2004, não tinha validade para praticamente nada, então muitos alunos nem faziam).

A cultura coach (e eu sou um pouco culpada disso) nos convenceu de que precisamos criar metas objetivas, específicas, mensuráveis, sonhar grande, dominar o mundo. Tudo isso é legal também, eu continuo gostando.

Mas os grandes avanços de melhoria na minha vida foram dados em cenários como quando eu ganhava R$ 1.900 de salário e comecei a vislumbrar a possibilidade de ter um emprego que pagava R$ 3.500. Eu poderia sair da casa dos meus pais, ir dividir um apê na capital, morar perto do trabalho e dormir melhor, até ter tempo de praticar alguma atividade física depois do trampo, poder fazer umas viagens, acessar mais bens culturais e intelectuais, fazer uma pós-graduação, eventualmente até guardar um dinheirinho.

Foi vislumbrar essa vida que me fez ajeitar meu currículo, falar com alguns ex-colegas da faculdade, me aplicar pra algumas vagas, estudar pra entrevista e passar no próximo emprego – que não seria e nem foi mesmo “meu trabalho dos sonhos”, mas olha o tanto de coisa que me proporcionou!

Vislumbre aquele que acontecia durante minhas três horas diárias de trajeto ida e volta ao trabalho, entre trem, metrô, dois ônibus e três humilhações.

O ponto é que a vida é normalmente difícil e muitas vezes ela fica mais difícil que o normal. Nessas fases, sonhar com outras coisas é quase impensável.

Pra ser bem honesta, até vislumbrar uma melhoria é treta quando tudo ao seu redor está negativo. Mas você precisa separar um tempo pra esse exercício.

Minha inspiração pra trazer esse tema foi justamente ter tido um mês de março super difícil. Estamos morando na casa dos meus sogros (que são anjos na terra, mas ainda assim não é minha casa e o desconforto aos 7 meses de gravidez é inevitável), estamos com problemas burocráticos em relação à nossa futura casa, sem previsão de resolver… e até Covid finalmente pegamos como cereja do bolo. Marido e eu trabalhando de um quarto pequeno, sem sair por medo de contaminar os outros moradores da casa. Nossas coisas continuarão em malas por tempo indeterminado. Imagina o estado mental!

Mas num desses dias entre uma tosse e outra, me peguei a pesquisar o trabalho de umas mulheres negras que atuam com consultoria financeira aqui no Reino Unido, elas dão formação pra quem quer atuar nisso também. Comecei a vislumbrar ser um trabalho que provavelmente consigo desempenhar enquanto cuido da bebê quanto ela tiver alguns meses. E se eu cobrar x por sessão, fizer y sessões por mês, consigo levantar uma renda z, sem precisar pagar a fortuna que é creche pra bebê pequeno nesse país e sem necessariamente ir para um emprego normal (o que também não seria problema se rolar).

Eu não tenho ideia se isso tudo vai acontecer, mas vislumbrar essa vida, que embora o caminho até ela esteja um pouco nebuloso, é uma vida bem possível, trouxe alegria pros meus dias de confinamento e impotência em relação à situação de desconforto imediato que estou vivendo.

Uma separação grande demais entre a vida real ao seu redor e os sonhos mirabolantes e metas elevadas pode gerar mais desmotivação do que tudo. Mas um vislumbre de uma melhoria de vida que está mais perto de poder ser vivida acaba sendo a faísca que vai te fazer sair da letargia e de fato alcançar essa vida melhor.

Vale muito separar um tempo pra vislumbrar, mesmo em meio ao caos se você estiver vivendo um.

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Evelin Bonfim
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